A Associação Nacional dos Membros do Ministério Público – CONAMP lançou nacionalmente ontem (16) o projeto O que você tem a ver com a corrupção?. Cerca de quinhentas pessoas participaram do evento, entre elas procuradores, promotores magistrados, presidentes de associações, advogados, parlamentares, crianças e adolescentes. Os vinte e sete presidentes das Associações do MP dos estados também estavam presentes, além dos Procuradores-Gerais de Justiça de todo o país. O lançamento foi realizado em Brasília, no edifício-sede do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios – MPDFT.
Diante de um auditório lotado, o ator Milton Gonçalves, que foi o mestre de cerimônias, apresentou o projeto, que prevê a realização de passeatas, shows, peças de teatro e concursos para alunos de escolas públicas e particulares sobre o tema O que você tem a ver com a corrupção?. Também será distribuída uma cartilha em escolas e locais com alta circulação de pessoas explicando que a corrupção existe em vários níveis e, por isso, todos podem combatê-la.
No lançamento, o presidente da CONAMP, José Carlos Cosenzo, fez duras críticas a quem pratica a corrupção, lembrando que atos ilegais prejudicam toda a sociedade e, por isso, precisam ser combatidos por todos.
"Não podemos mais fechar os olhos à corrupção que campeia desenfreada, provocando escândalos e mais escândalos. Para a sociedade, a corrupção é um fenômeno que causa prejuízos irreversíveis no âmbito coletivo, para favorecer ilegalmente alguns indivíduos. A corrupção subtrai direitos, tira oportunidades, fecha as portas dos serviços públicos e de forma trágica, deixa os ladrões ricos cada vez mais opulentos e os pobres cada vez mais pobres. Mais que se apropriar ilicitamente de bens materiais, o corrupto é o verdadeiro ladrão de sonhos, sonhos de paz, alegria e de um futuro melhor", destacou.
Na opinião de Cosenzo, o melhor caminho para o combate à corrupção desenfreada é a educação da população brasileira. "É fundamental a adoção de uma postura de educadores. Sim, educar e conscientizar. Educar desde a infância, demonstrando que a corrupção pode deformar personalidades em formação. Ensinar que pequenos desvios de comportamento, como furar filas, deixar de restituir bens que não nos pertencem, levar vantagem quando a regra é a igualdade, pode ser o caminho para a corrupção", disse o presidente da CONAMP.
A importância da ética desde os pequenos atos também foi lembrada pelo Procurador-Geral de Justiça do Distrito Federal, Leonardo Bandarra. Segundo ele, não só os agentes públicos e políticos são responsáveis pela a corrupção. "A corrupção tem que ser vista não como uma coisa alheia. O grande ato de corrupção começa com pequenos atos, como furar a fila e lucrar no troco. Esses pequenos atos criam uma mentalidade corrupta. É preciso acabar com eles", disse Bandarra.
Os atores José Wilker, Murilo Rosa e Armando Babaioff e o atleta Alberto Bial também participaram do lançamento. Eles aderiram ao projeto da CONAMP e se comprometeram a divulgar a idéia em todo o país.
"Cada um de nós é responsável por coibir o que acha que está errado. Não posso me calar diante de um ato que considero desonesto, senão também estarei sendo desonesto", disse José Wilker durante o evento.
Murilo Rosa também cobrou o empenho da sociedade no combate à corrupção. "A única forma do país crescer é combatendo a corrupção. Com todo mundo roubando, não dá, não tem como. Todos os cidadãos deveriam cobrar mais. Falta indignação ao povo brasileiro. As pessoas agüentam caladas", destacou o ator.
Ainda durante o lançamento, foram assinados termos de cooperação com a Associação dos Membros dos Tribunais de Conta do Brasil – ATRICON, Associação Brasileira de Tribunais de Contas Municipais – ABRACOM, Instituto Rui Barbosa e com a Escola de Administração Fazendária – ESAF. As associações agora também são parceiras do projeto O que você tem a ver com a corrupção?. Já apóiam a iniciativa a Rede Globo, Companhia Vale do Rio Doce, Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas - CNDL, Instituto Innovare, Associação dos Magistrados Brasileiros – AMB, Confederação Maçônica do Brasil e a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino – CONFENEN.
O projeto
O que você tem a ver com a Corrupção? é uma iniciativa da CONAMP, em parceria com o Conselho Nacional de Procuradores-Gerais – CNPG. O projeto foi criado para atingir principalmente as crianças e adolescentes, mas acabou sensibilizando as diferentes camadas da população em Santa Catarina, estado onde a campanha nasceu, em 2004. A aceitação da mensagem, que inicialmente era veiculada apenas no município de Chapecó, no oeste do estado, se deve justamente à conscientização de que a corrupção não é um problema apenas da classe política ou da administração pública.
O projeto tem caráter educativo e busca conscientizar a sociedade, especialmente crianças e adolescentes, a partir de um diferencial, que é o incentivo à honestidade e transparência das atitudes do cidadão comum, destacando atos rotineiros que contribuem para a formação do caráter.
O caminho proposto pela campanha é um processo cultural de formação de consciência e de responsabilidade dos cidadãos, a partir de três tipos de responsabilidades: a responsabilidade para com os próprios atos, ou responsabilidade individual (estou fazendo a minha parte no meu dia-a-dia?) a responsabilidade para com os atos de terceiros, ou responsabilidade social ou coletiva (estamos cobrando individual e coletivamente a efetiva apuração e punição de corruptos e corruptores? Estamos efetivamente contribuindo para o fim da impunidade?) a responsabilidade para com as gerações futuras a partir de um agir consciente.
Além do objetivo preventivo por meio da educação, o projeto tem como escopo estimular as denúncias populares dos atos de corrupção, não importando o maior ou menor grau de lesão à população. Com isso, cria-se um canal direto entre a sociedade e o Ministério Público Brasileiro, facilitando a apuração das mencionadas condutas. Para isso, os portais dos Ministérios Públicos nos estados abrirão um link em que qualquer pessoa poderá preencher um formulário para denunciar casos suspeitos de corrupção.