A missão de Paulo Castilho é ingrata. O promotor público em São Paulo encampou o combate à violência no futebol dependendo da boa vontade e dos recursos de uma série de órgãos, entidades e pessoas. Apesar dos riscos conhecidos, Coritiba 1 x 1 Fluminense terminou há um mês com cenas de vandalismo no Couto Pereira, em Curitiba. E de quem é a culpa?
Paulo Castilho não hesita: "Nesse caso, polícia, CBF e clube falharam no plano de segurança". E lamenta que o projeto de lei específico para crimes do futebol, do qual é um dos autores, esteja ainda para ser aprovado no Senado.
Nessa entrevista ao Lance!, ele cobra órgãos da Justiça e da Polícia Civil voltados para o futebol. Bem como as bebidas alcoólicas longe dos estádios, inclusive durante a Copa do Mundo em 2014. Além disso, revela a faceta adolescente como zagueiro no São Paulo. O temor da família em sua relação com as torcidas organizadas. E a pretensão de se tornar dirigente de um clube. Confira.
- Até agora a investigação sobre os atos de violência depois do jogo Coritiba 1 x 1 Fluminense se fixou nos torcedores. Esse é o caminho?
Estou no tema há quatro anos. O artigo 17 do Estatuto do Torcedor diz que toda partida de futebol requer plano de segurança, de responsabilidade da entidade organizadora, do clube e da Polícia Militar. O Ministério Público atua como fiscal da lei. Nesse caso de Curitiba, não tenho dúvida de que houve falha na elaboração do plano e o clube tem a maior parcela de culpa. É claro que não eximo de responsabilidade os maus torcedores. Aqueles que cometeram atos de violência precisam ser punidos e até presos, se for o caso. Mas o clube pôs ingressos a R$ 5, superlotou o estádio e colocou a torcida organizada no térreo, permitindo que ela invadisse o campo. Todos subestimaram o potencial de risco do jogo. Por fim, a PM, que determina quantos torcedores podem entrar em cada jogo, que determina o número de orientadores e também o plano de evacuação. A falha foi generalizada.
- Mas qual foi a falha específica?
Havia poucos policiais na parte interna. Se permitir que um homem invada, não dá para controlar mais. No Brasileiro de 2007, no jogo em que o São Paulo estava para ser campeão, havia uma perspectiva de invasão do campo. Eu me reuni com a Policia Militar e o clube para evitar isso. Assim foi feita uma linha de policiais, a 3 metros um do outro, com um número igual de orientadores, intercalados. Havia uma segunda linha de policiais, esses com cachorros. Não houve invasão.
- Pela sua experiência, o que acontecerá no âmbito penal?
Não tenho dúvida nenhuma que, com base nas provas, o promotor do Paraná vai responsabilizar as partes. O clube vai ser punido, a federação local e a Polícia Militar serão responsabilizadas pelos atos.
- Um dos pontos mais impressionantes foi a desorganização dos policiais. A cena de um deles ferido e carregado pelo uniforme...
É por isso que eu defendo uma polícia especializada no futebol e organizada nacionalmente. Pode ser a PM, mas tem que ser especializada em espetáculo esportivo. Em Curitiba, ainda bem que o evento ocorreu para dentro do campo e não para fora do estádio.
- Como assim, ainda bem?
Porque não existe plano para a evacuação dos estádios. A maior tragédia do futebol aconteceu no jogo entre Peru e Argentina, de 1964, num Pré-Olímpico No Brasil, estamos no lucro, porque não aconteceu nada.
- Mas baseado na legislação atual, que punição de fato caberá aos torcedores?
O máximo que vai acontecer é o afastamento dos torcedores por dois anos dos estádios, pois lesão leve no Brasil não dá cadeia. Sei que isso pode dar a alguns a sensação de impunidade, mas só acabar com isso não resolve a questão. Não dá para continuar com um monitoriamente deficiente, permitindo o nível atual de consumo de droga. Hoje se consome mais droga nos estádios do que na rua.
- O cadastramento pleno dos torcedores é mesmo necessário?
Sim. Ele tanto foi criticado que o retiraram do projeto de lei. Mas eu não vejo nenhum malefício. Você acaba com a falsificação dos ingressos, com o cambismo, porque o ingresso passa a ser virtual e intransferível. Você tem um controle total sobre as pessoas que estão lá dentro, com sistemas interligados às secretárias de segurança pública.
- E a invasão de privacidade?
Em todo lugar aonde você vai hoje, na maioria dos prédios comerciais, você tem que se cadastrar. Por que não no futebol? Além disso, esse banco de dados permitiria uma série de ações sociais do governo voltadas aos jovens de baixa renda.
- A venda online já existe. Operadoras de ingresso fazem isso.
Mas não está interligado com as secretarias de segurança pública. Hoje há um monte de gente com mandado de prisão que vai aos jogos. Com o sistema, muita gente que precisa ser presa seria presa.
- A quem cabe esse custo?
Ele não é tão alto. Já existem sistemas das secretarias de segurança e do Ministério da Justiça. Basta um sistema de computador para integrá-los. Num momento, o Ministério do Esporte bancaria isso, depois seria mantido pelos próprios clubes. A manutenção do banco seria do Ministério.
- Como tratar as torcidas organizadas? A quem interessa manter essa situação?
Elas congregam muitos jovens. E lá tem gente do bem. Não tem só do mal. As torcidas precisam de cadastramento, acompanhamento e ações sociais. Extinguir não é a solução, porque esses torcedores ou criam uma nova torcida ou entram como torcedores comuns. É preciso ação de inteligência policial.
- Mas como esperar uma ação assim da polícia? Estudos comparativos com outras polícias do mundo mostram que a nossa polícia é melhor para reprimir do que para prevenir e investigar.
A polícia tem know-how, tem competência. Quando quer, a polícia sabe trabalhar muito bem.
- A dificuldade para esclarecer casos diante de testemunhas, como a agressão de torcedores a Luxemburgo em Congonhas, mostra ser preciso melhorar.
O que a polícia precisa é se estruturar. Cada caso do futebol cai para um delegado diferente. É preciso de uma polícia especializada em espetáculos esportivos. O Brasil precisa de uma Lei Maria da Penha (que trata da violência doméstica) para o futebol.
- Há inquérito para apurar dirigentes envolvidos em esquema irregular de venda de ingressos?
Nesses esquemas os diretores repassam ingressos para as torcidas organizadas. Não há ilegalidade, mas uma relação promíscua. Isso abre a porta para a organizada se meter na vida do clube.
- O presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, defende a liberação da cerveja nos estádios.
Entendo a posição dele. Está defendendo os interesses econômicos do clube. Mas essa questão é de segurança pública. Com álcool, as pessoas perdem os freios morais, e ficam mais propensas à violência. Hoje, tem gente que chega embriagada ao jogo. Mas, como não bebe lá, o efeito vai passando. No fim do jogo, está bem.
- E a venda de bebidas na Copa do Mundo no Brasil?
Acho que as pessoas não vão aceitar. Até as normas da FIFA proíbem a venda de bebida. Para liberar a bebida na Copa, a Fifa terá que ir contra ela mesma. No Brasil há leis em quase todos os estados. Não dá para a bebida ser proibida até maio de 2014, ser liberada em junho e julho e ser proibida em agosto. Não se sustenta. Ou pode ou não pode.